A rua é o lugar! / Fatin maka lurón!

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Ao final do texto, a tradução para Tétum foi realizada pelo intérprete Marcelo Nunes.

A rua é o lugar!

As ruas são os locais onde as crianças e jovens encontram-se para jogar futebol ou para brincar à beira do mar. Na rua, em Díli, as crianças com seus uniformes caminham em grupos para ir à escola, jovens andam abraçados ou de mãos dadas enquanto conversam e dão gostosas gargalhadas. Atualmente, esse espaço é vital para os timorenses, pois é nele que ocorrem as trocas de ideias, onde as amizades se fortalecem entre esses sujeitos, onde se encontram os casais e onde muitos outros timorenses conquistam o seu ganha-pão, vendendo produtos de todo tipo, como cigarros, créditos de telefone, água mineral, cerveja etc.

Avenida dos Coqueiros em Díli. A extensão da praia é frequentada por milhares de timorenses que jogam futebol, caminham, andam de bicicleta, pescam e vendem seus produtos. Quantos encontros um espaço como esse pode produzir em um dia? Fotografia: Igor S. Berned.

Comércio de produtos manufaturados e populares vendidos em estradas nas saídas de Díli. Fotografia: Igor S. Berned.

Trabalhador vendendo seus produtos, cotidianamente, dia e noite, a timorenses e a malae sira (estrangeiros). Fotografia: Igor S. Berned.

Pai e filho caminhando pelas ruas e praças de Díli em frente do Palácio do Governo da RDTL. Fotografia: Igor S. Berned.

Casais encontram-se em espaços livres para viver e experimentar as intensidades do amor e dos afetos. Fotografia: Igor S. Berned.

Farol: Um dos pontos de encontro de amigos e casais de namorados em Díli.

 

É andando pelas ruas de Díli que você encontra as crianças brincando juntas, sem usar aparelhos tecnológicos como celulares ou computadores. Você encontra facilmente grupos de estudantes secundaristas ou dos cursos de graduação das universidades timorenses estudando também juntos ou fazendo alguma pesquisa na internet durante o dia, enquanto as crianças se divertem nos brinquedos das praças e os demais adolescentes namoram ou trocam boas ideias com os amigos.

A bola, a corrida e o esconde-esconde são as principais brincadeiras das crianças que crescem em um ambiente que as pessoas reconhecem a importância da colaboração a fim de superar as dificuldades que a realidade lhes impõe, como as doenças, as dificuldades financeiras, as dificuldades de distribuição de alimentos, acesso a água potável e as dificuldades que surgem com as chuvas e alagamentos.

 

Meninas timorenses fazem exercícios físicos durante um fim de tarde em Díli. Quantos encontros é possível acontecer numa praça durante um dia? Fotografia: Igor S. Berned.

Jovens dialogando pela praça pública 5 de maio em Díli. Uma praça que acolhe muitos encontros entre jovens e crianças timorneses diariamente. Crédito: Igor S. Berned.

Crianças se divertem brincando juntas na caixa de área. Desde pequenos, os timorenses aprendem o valor das amizades, do companheirismo e dos afetos. Fotografia: Igor S. Berned.

Crianças se divertem brincando juntas na caixa de área. Desde pequenos, os timorenses aprendem o valor das amizades, do companheirismo e dos afetos. Fotografia: Igor S. Berned.

É andando pelas ruas que você encontra as mulheres timorenses vestidas com as suas roupas tradicionais, dialogando em grupos, cuidando das crianças e/ou administrando com os esposos os bares onde se vendem cigarros, água, cerveja, alimentos e alguns produtos industrializados de baixo custo, como chinelos rasteiros e bolas de futebol de borracha.

Mulheres timorenses usando seus trajes tradicionais timorenses são encontradas pelas ruas do centro e das demais regiões de Díli. Fotografia: Keu Apoema.

Pelas feiras ou pelas principais avenidas de Díli, os timorenses dialogam e atualizam as informações sobre o que está ocorrendo na cidade, na região e no país. Nesses locais de encontro ocorrem as trocas de ideias. A língua intermediária da comunicação entre essas pessoas é a língua Tétum ou as línguas maternas (Fataluku, Makasae, Makaleiru, Mambae, Kemak, Tokodede, no sei iha barak tan)  quando as pessoas que estão dialogando são dos mesmos distritos (Los Palos, Ermera, Líquiça, Manatuto, Baucau, Viquequi, Aileu, Manufahi, Oecusse, Bolbonaro, Cova Lima).

Nos ambientes populares pouco se ouve os timorenses dialogando em língua portuguesa. A língua portuguesa é um dos idiomas oficiais de Timor, mas, na atualidade, ainda é pouco difundida no interior de Dili e nas outras comunidades locais, para as quais o Tétum ou as línguas maternas são as mais utilizadas no seio da população. Ouve-se a língua portuguesa em situações em que os timorenses conversam com brasileiros ou com portugueses vindos a Timor, na sua maioria através de acordos internacionais de colaboração bilaterais, entre Timor Leste e Portugal ou Timor Leste e Brasil, em áreas estratégicas como na educação, segurança e saúde.

Em Díli, a rua é o espaço dos encontros de muitos timorenses. É o espaço de encontros das pessoas que vivem a realidade de Timor e que não vivem a “confortável vida” que os “malai”, “os estrangeiros” em Língua Tétum, usufruem em Timor. Em Timor, a grande parte da população ainda não tem acesso aos bens industrializados elétricos (como ares-condicionados, televisores, fogões elétricos etc) e alimentícios (como biscoitos, leite, massas, chocolates, e carne), que os estrangeiros encontram em lojas ou em supermercados.

Uma das consequências da presença de cooperações internacionais desde o período de ocupação da Organização das Nações Unidas (ONU), onde se iniciou a instauração do Estado da República Democrática de Timor Leste, independente da Indonésia em 2002, foi a elevação do custo de vida de Díli para os timorenses. Afinal, desde aquele período em que os internacionais começaram a vir trabalhar em cooperação com o estado timorense, os produtos industrializados são importados.

A disparidade dos salários entre internacionais e timorenses criou um processo econômico e social em que os timorenses quase não têm facilidades no acesso à compra de produtos industrializados. Em um país em que grande parcela da população recebe o salário de 115 dólares estadunidenses, o acesso de bens de consumo manufaturados de origens europeias, das Américas latina e anglo-saxônica e da Oceania, como por exemplo, comprar leite de vaca a 2,50 dólares, pão a 2,50 dólares, um quilograma de arroz a 3 dólares ou ir a um açougue e comprar carne de gado a 10 dólares o quilograma, por exemplo, torna-se inviável.

Se os estrangeiros atualmente gerenciam o comércio logista, ocupam cargos públicos de alto custo para o Estado timorense e frequentam os supermercados de Díli, essa situação social impulsiona as ruas e avenidas a serem os locais onde se concentram os timorenses a fim de vender e comprar alimentos, como frutas e verduras plantadas em hortas e outros produtos. Essa realidade reflete-se também no interior de Timor. Os alimentos consumidos são vendidos a preços mais acessíveis à população. Esses alimentos são vendidos a um, dois, três dólares.

Trabalhadores de Timor Leste vendendo peixes, crustáceos, cefalópodes ao longo da Avenida dos Coqueiros em Díli. Fotografia: Igor da S. Berned.

Trabalhadores de Timor Leste vendendo peixes, crustáceos, cefalópodes ao longo da Avenida dos Coqueiros em Díli. Fotografia: Igor da S. Berned.

Trabalhadores de Timor Leste vendendo peixes, crustáceos, cefalópodes ao longo da Avenida dos Coqueiros em Díli. Fotografia: Igor da S. Berned.

Trabalhadores de Timor Leste vendendo peixes, crustáceos, cefalópodes ao longo da Avenida dos Coqueiros em Díli. Fotografia: Igor da S. Berned.

Trabalhadores de Timor Leste vendendo peixes, crustáceos, cefalópodes ao longo da Avenida dos Coqueiros em Díli. Fotografia: Igor da S. Berned.

Trabalhadores de Timor Leste vendendo peixes, crustáceos, cefalópodes ao longo da Avenida dos Coqueiros em Díli. Fotografia: Igor da S. Berned.

Trabalhadores de Timor Leste, em Díli, vendendo peixes. Nesse momento, ocorre a preparação dos peixes para venda, quando os jovens mergulham os peixes na água com sal a fim de deixá-los prontos para a venda, em cima da calçada, enquanto os potencias compradores circulam pelas ruas de automóvel e motos. Fotografia: Igor S. Berned.

As cooperações internacionais (australianas, estadunidenses, portuguesas, japonesas, malásias, chinesas, filipinas, canadenses, espanholas, francesas, alemãs, brasileiras, etc) estão em Timor desde o início do processo de reconstrução do Estado timorense. As cooperações representam a “ajuda que os países desenvolvidos” ofereceram ao país nas mais diversas e difusas áreas das instituições que vão compor o Estado de Timor-Leste.

Elas, em Timor, trazem consigo a disseminação dos seus valores éticos e seus padrões de vida e visam a promover o “desenvolvimento econômico com justiça social” de Timor. Aqui, é importante pontuar que essas cooperações proporcionam projetos em várias áreas estratégicas, como segurança, infraestrutura e educação e recebem o apoio das elites locais e do Banco Mundial. O Banco Mundial é um dos principais “parceiros para o desenvolvimento econômico de Timor”, assim como Portugal e a Austrália, e uma das ações realizadas nessa magnífica ilha é interferir de forma direta e indireta nas ações e planos estratégicos de desenvolvimento do governo timorense, como estimular as reformas em educação e obrigar todas as crianças, jovens e adolescentes de Timor a frequentar a escola.

Pelas ruas é possivel, se você estudar a língua Tétum, perceber nos diálogos entre os timorenses as suas diferenças no modo de estar e olhar para a vida, o que é uma das principais belezas de Timor: as diferenças culturais que compõem os difusos olhares da população timorense. Esses olhares se manifestam pelas ruas e avenidas onde as pessoas se encontram.

Em Timor, se o estrangeiro estiver a fim de conhecer um pouco mais a cultura timorense, ele precisa se desapegar de muitas “bagagens culturas” que carrega consigo como, por exemplo, a crença em conceitos universais e globais como “desenvolvimento”, “educação”, “igualdade”, “justiça” e “cultura-valor”.

Em Timor, daqui desse lugar compostos por todos os lados de uma natureza incrível recheada de montanhas e mares e onde vivem muitas comunidades tradicionais espalhadas por toda essa nação, você precisa aprender a entrar em conflito consigo ao ouvir expressões que carregam valores e  conceitos universais que estão penetrados em nossos corpos e em nossas vidas. Assim como as crianças brincam e lavam-se no mar, nós, os internacionais, precisamos aprender a libertar-se dos (in)conscientes processos civilizatórios que as cooperações internacionais vêm realizar em Timor. Essas palavras universais – “educação”, “paz”, “consumo”, “mercado”, “diferença” – estão em nossos corpos: corpos internacionais que acreditam no trabalho e nas longas jornadas de trabalho em nome do emprego assalariado, em impostos que acreditamos serem para a garantia de um futuro. Em nome de um futuro, aprendemos nas sociedades ocidentais a esquecer do presente, a esquecer do momento e da alegria que é encontrar pessoas e com elas compartilhar momentos compostos por afetos, trocas e produção de experiências.

Eu, aqui em Timor, trabalho como um educador, mas após quase um ano nesse lugar posso afirmar aos amigos e amigas que acompanham OS DIÁRIOS dessa viagem pelo sudeste da Ásia que NÓS TEMOS MUITO QUE APRENDER COM OS TIMORENSES, independente deles serem crianças, jovens ou adultos.

Timorenses conversam entre si e com o pescador. Enquanto isso, o menino assiste o pescador buscar os peixes que estão na rede. Fotografia: Igor S. Berned.

Meninas e meninos brincam dentro da água do mar pela extensão da Avenida dos Coqueiros. Fotografia: Igor S. Berned.

Crianças brincam pela extensão da Avenida dos Coqueiros na areia. Elas brincam de “pega-pega”, cantam e dançam. Fotografia: Igor S. Berned.

A rua, logo, é um espaço político em Díli. É nela que ocorrem os encontros e  desencontros, é o espaço das brincadeiras e das gargalhadas das crianças que tomam banho de mar, enquanto brincam entre as ondas. A rua e os seus encontros representam um dos ambientes de resistência neocolonial da cultura timorense frente à influência dos padrões de vida estrangeiros. É o espaço em que as cooperações internacionais e os seus camuflados discursos civilizatórios ocidentais não ocupam. Afinal, muitos cooperantes internacionais não vão para as ruas, evitam estar nesses locais e se fecham para as possibilidades de trocas de experiências e aprendizagens. Nas ruas e nos demais espaços públicos os afetos, os sorrisos, a religiosidade, as passeatas, as comemorações e as festas populares, o desejo de viver e de superar os desafios para a manutenção de uma qualidade de vida, baseando-se na própria cultura local, encontram espaços abertos para manifestar em Timor.

Amigos brincam de pular na água, enquanto outros dois assistem à brincadeira do colega no fim de tarde em Díli. Fotografia: Igor da S. Berned

Amigos brincam de pular na água, enquanto outros dois assistem à brincadeira do colega no fim de tarde em Díli. Fotografia: Igor da S. Berned.

No mar, em meio às ondas, os pescadores timorenses reconhecem, através das duas práticas cotidianas, o quanto as amizades são fundamentais para superar as dificuldades que a realidade lhes impões. Fotografia:Igor S. Berned.

Futebol no fim de tarde em Díli. Os esportes coletivos são muito comuns entre os jovens timorenses. Assim como o futebol, é comum encontrar os jovens (meninos e meninas) correndo praticando esporte em grupos pelas ruas de Díli.

Futebol no fim de tarde em Díli. Os esportes coletivos são muito comuns entre os jovens timorenses. Assim como o futebol, é comum encontrar os jovens (meninos e meninas) correndo praticando esporte em grupos pelas ruas de Díli.

Monumento em homenagem às vítimas do Massacre de Santa Cruz. (Para mais informações sobre o acontecimento, clique aqui) . Ao fundo “a cabeça do crocodilo de pedra” a qual é a imagem que inspira a lenda. da formação da ilha de Timor-Leste.

 

 

Fatin maka lurón!

Lurónsira maka sai fatin ba labarik no foin-sa’e sira hasoru-malu hodi joga futeból ka halimar iha tasi-ibun. Iha lurón, iha Dili, labarik sira uza farda eskola nian la’o ho lubuk ba eskola hamutuk, foin-sa’e sira la’o hakohak-malu ka kaer liman ba malu bainhira dada-lia no hamnasa-hahaek ho haksolok.

Ohin-loron, fatinida-ne’edi’aktebetebesba

timoroansira, tanbaihane’ebámakasiratrokahanoinbamalu, fatinne’ebéamizadesaimetinliutánihaemasira-ne’enialeet, ne’ebéfeen-la’ensirahasoru-malu no móstimoroansiraselukbe “manánsira-niapaun” liuhosifa’anprodutuoioinhanesansigaru, pulsa-telefonenian, bee-hemu, servejanst.

La’oihalurónsiraihaDilimakaItaseihareelabariksirahalimarhamutuk la uzasasánteknolójikusirahanesantelefonekakomputadórbainhira. Sei la susarItahareeeskola-oanlubukhosisekundáriukahosikursugraduasaunhosiuniversidadesiraihaTimórne’ebéestudahamutukdaudaukka halo peskizarumaiha internet ihalorontomakmaibéihatempuhanesanlabariksirahaksolok-andaudauk ho brinkedusprasanian no mane-klosanfeto-raansiraseluknamora-malukatrokahanoindi’akbamalu ho belunsira. 

Bola, halai no subar-malumakaLabariksira-niahalimarprinsipálliune’ebésiraburasihahorikle’uidane’ebéemasirarekoñeseimportánsiahositulun-lisukhamutukhodibelehakatliususarhirakne’ebésirahasoru, hanesanmorasoioin, susárbaosan, susarbahetanai-han, susarhetan bee-moos no susarhirakne’ebémosu ho udan no bee-sa’e.

Hosi feira ka hosi avenida prinsipál sira iha Dili, timoroan sira ko’alia ba malu no atualiza informasaun kona-ba saida mak la’o hela iha vila-laran, rejiaun no iha país nia laran. Iha fatin hirak-ne’ebé sira hasoru-malu sira troka hanoin ba malu. Lian ne’ebé sira uza hodi ko’alia ba malu maka lian Tetun ka lian-inan sira (Fataluku, Makasae, Makaleiru, Mambae, Kemak, Tokodede, no sei iha barak tan) bainhira ema sira-ne’ebé ko’alia ba malu hela  ne’e hosi distritu hanesan (Los Palos, Ermera, Líquiça, Manatuto, Baucau, Viqueque, Aileu, Manufahi, Oecusse, Bobonaro, Cova Lima).

Iha povu nia horikle’u rona uitoan de’it timoroan sira ko’alia ba malu iha lian portugés. Lian portugés nu’udar Timór nia dalen ofisiál ida, maibé, to’o daudauk ne’e, uitoan de’it mak naklekar iha Dili laran no komunidade lokál sira seluk, ba sira seluk Tetun ka lian-inan sira maka populasaun sira uza liu. Rona lian portugés ne’e iha situasaun sira ne’ebé timoroan sira dada-lia ho ema-brazil no ema portugés sira ne’ebé mai iha Timór, barakliu liuhosi akordu internasionál hosi kolaborasaun bilaterál entre Timor-Leste no Portugal ka Timor-Leste no Brasil, iha área estratéjika sira hanesan iha edukasaun, seguransa no saúde.

 IhaDili, lurónmakafatinbatimoroanbarakhasoru-malu. Ne’e mak fatin ba ema sira-ne’ebé moris tuir Timór nia realidade no sira ne’ebé la moris ho “vida konfortavel” ne’ebé “malae”, “estranjeiru sira “  iha Lian Tetun, goza iha Timór. Iha Timór, populasaun barakliu seidauk hetan asesu ba sasán industrializadu elétriku sira (hanesan ar-kondisionadu, televizaun, fogaun elétriku sira nst) no hahán (hanesan biskuit, susuben, supermi-makaraun, xokolate, no na’an) ne’ebé malae sira hetan iha loja ka iha supermerkadu sira.

 Konsekuénsia ida hosi kooperasaun internasionál sira ne’ebé iha horikedas períodu okupasaun ONU nian, ne’ebé hahú instaurasaun Estadu Repúblika Demokrátika Timor-Leste nian, ukun-rasik an hosi Indonezia iha 2002, sai vida ida-ne’ebé karu ba timoroan sira iha Dili. Afinál, horikedas tempu ne’ebá maka internasionál sira hahú mai servisu tanba kooperasaun ho estadu timoroan, produtu industrializadu sira haruka hosi rai-li’ur hotu.

Saláriu sira-ne’ebé la hanesan entre internasionál no timoroan sira hamosu prosesu ekonómiku no sosiál ne’ebé halo timoroan sira kuaze la iha fasilidade atu asesu ba sosa produtu industrializadu sira. Iha país ida-ne’ebé populasaun sorin balu bootliu simu saláriu dólar amerikanu 115, atu hetan asesu ba sasán hosi ai-han manufaturadu sira ne’ebé maihosi Europa, Amérika Latina no Anglo-saksónika no hosi Oseania, hanesan ezemplu, sosa susuben-karau ho folin 2,50 dólar, paun 2,50 dólar, foos kilu ida dólar 3 ka la’o ho pár kaben-na’in no sosa na’an karau kilu ida dólar 10,ezemplu, ne’e ladún justu.

 Se estranjeiru sira daudauk ne’e jere komérsiu loja sira, okupa kargu públiku ho folin bootliu ba estadu timoroan no moris ho supermerkadu sira iha Dili, situasaun sosiál ida-ne’e halo dalan no lurón sira sai hanesan fatin ne’ebé timoroan sira hobur-bá hodi fa’an no sosa ai-han no produtu sira seluk, hanesan ai-fuan no modo-tahan sira-ne’ebé maihosi to’os. Realidade ida-ne’e mosu mós iha Timór laran. Ai-han sira-ne’ebé sosa sei fa’an fali ho folin ida-ne’ebé natoon ba populasaun. Ai-han hirak-ne’e fa’an ba dólar ida, rua no tolu.

Kooperasaun Internasionál sira ho (Austrália, Amérika, Portugal, Japaun, Malázia, Xina, Filipinas, Kanada, Español, Fransa, Alemaña, Brasil nst) iha Timór ne’e hahú horikedas prosesu rekonstrusaun Estadu Timoroan nian.

Kooperasaun hirak-ne’e sai hanesan “ ajuda ne’ebé país dezenvolvidu sira fó ba Timór iha área oioin no haluan ba to’o área instituisaun sira-ne’ebé harii Estadu Timor-Leste nian.

Instituisaun hirak-ne’e, iha Timór, mai ho halekar sira-nia valór étika  no sira-nia banati moris no ho rohan promove “dezenvolvimentu ekonómiku ho justisa sosiál Timór nian. Iha-ne’e, importante tebes atu tau projetu hirak-ne’e la’o hanesan iha área estratéjika oioin, hanesan “seguransa”, “infraestrutura” no “edukasaun” no sira simu apoiu hosi elite lokál sira no Banku Mundiál. Banku Mundiál sai hanesan “parseiru prinsipál ida ba dezenvolvimentu ekonómiku Timór nian”, nune’e mós Portugal no Austrália, no asaun ida hosi sira-ne’ebé hala’o iha illa boot ida-ne’e hanesan satan ho dalan direta no indireta iha asaun no planu estratéjiku sira dezenvolvimentu governu timoroan nian, nu’udar dalan ida atu hamoris reforma sira iha edukasaun no obriga labarik hotu-hotu, foin-sa’e no feto-raan mane-klosan sira Timór nian hodi tama eskola.

Hosi lurónsira, sei bele, bainhira Ita estuda lian Tetun, seikomprende timoroan sira ko’alia ba malu iha sira-nia kaketak kona-ba sira-nia maneira no hareen kona-ba moris, ne’e maka buat furak ida Timor-Leste nian: kultura sira-ne’ebé la hanesan maka hariin populasaun Timor-Leste ninia hareen. Hateken sira-ne’e mosu iha lurón no dalan sira ne’ebé ema hasoru-malu.

Iha Timór, se estranjeiru ne’e hakarak koñese timoroan nia kultura uitoan, nia presiza haketak-an hosi kultura barak, “bagajen kultura” ne’ebé nia lori hanesan, ezemplu, fiar iha konseitu universál no globál sira hanesan “dezenvolvimentu”, “edukasaun”, “igualdade”, “justisa” no “kultura-valór”.

Iha Timór, iha fatin ida-ne’e ema mai hosi fatin hotu-hotu ne’ebé halo ema lafiar nakonu hale’u hosi foho no tasi ne’ebé namkari lemo-lemo iha nasaun ida-ne’e tomak, Ita presiza  tama konflitu ho Ita-Boot rasik hodi rona espresaun hirak-ne’ebé lori valór no konseitu universál hirak ne’ebé tama ona iha ita-nia isin-lolon no iha ita-nia moris. Nune’e mós labarik sira halimar no fase-an iha tasi, ita, internasionál sira presiza aprende atu kore-an hosi senti-laek prosesu sivilizatóriu nian ne’ebé kooperasaun internasionál mai hala’o iha Timór. Liafuan universál hirak-ne’e – “edukasaun”, “pás”, “konsumu”, “merkadu”, “diferensa” –iha hela ita-nia isin-lolon: korpu internasionál sira-ne’ebé fiar iha servisu no viajen naruk servisu nian tanba halo-servisu ho saláriu, iha impostu no ami fiar sai hanesan garantia ida ba futuru. Tanba naran futuru, ami aprende iha sosiedade osidentál hodi haluha tiha prezente nian, haluha tiha momentu no haksolok nian ne’ebé hasoru-malu ho ema no ho sira-ne’e sei fahe ba malu momentu sira hamaus nian, troka no prodús esperiénsia.

 Ha’u, iha-ne’e iha Timór, hala’o knaar nu’udar edukadór ka manorin ida, maibé liutiha besik tinan ida ona iha fatin ida-ne’e, ha’u bele haktemik ba belun feto no mane sira ne’ebé akompaña viajen ida-ne’e LORO-LORON hosi Ázia sudeste katak ITA TENKE APRENEDE BARAK HO TIMOROAN SIRA, LAHAREE BA SIRA-NE’E HANESAN LABARIK, FOIN-SA’E KA FOIN-SA’ETINAN-BOOT. 

Iha lurón, ne’e, iha Dili hanesan fatin ba halo polítika. Fatin ne’e maka mosu hasoru-malu no fahe-malu, ne’e maka fatin halimar no labarik sira ne’ebé hariis tasi hamnasa-hahaek, bainhira halimar ho laloran. Lurón no ninia sorumutu sira sai hanesan horikle’u ida hosi rezisténsia neokoloniál kultura timoroan nian hasoru influénsia hosi banati moris estranjeiru nian. Ne’e maka fatin ida-ne’ebé kooperasaun internasionál ho sira-nia diskursu-subar sivilizatóriu osidentál la okupa, afinál, kooperasaun internasionál barak la ba iha lurón sira, ne’e katak, hadook-an tiha hosi fatin hirak ne’e no sei taka ba posibilidade atu troka esperiénsia no  aprendizajen. Iha lurón no fatin públiku sira seluk tan hamaus, hamnasa-midar, fiar-relijiaun, la’o-halimar, komemorasaun no festa populár sira, hakaran ba moris no hakatliu susar sira hodi hadi’a kualidade moris nian, bazeia ba kultura lokál rasik, hetan fatin nakloke hodi manifesta iha Timór.

 

Referência: SILVA, K. C. As nações desunidas: Práticas da ONU e a estruturação do Estado em Timor-Leste. Bele Horizonte: Editora UFMG, 2012.

A rua é o lugar!/Fatin maka lurón!, pelo viés de Igor S. Berned* e tradução de Marcelo Nunes*.

*Igor é  Educador em Ciências e está em Timor Leste desenvolvendo propostas de Educação com crianças e adolescentes timorenses surdos, cegos, portadores de  síndrome de down e cadeirantes.

*Marcelo Nunes é tradutor-intérprete jurídiku de português-tétum e professor de Tétum para estrangeiros.

“Ha’u Hadomi Timor-Leste..!” (Eu amo Timor Leste!)

Monumento em Homenagem aos Estudantes massacrados no Cemitério de Santa Cruz, Díli

O nosso encontro hoje não será com uma pessoa, mas com muitas e muitas pessoas que lutaram para ver Timor Leste independente. O texto será dedicado à memória dos estudantes fuzilados há mais de 39 anos durante o episódio que ficou conhecido, meses depois, como o massacre de Santa Cruz. Então, vem comigo que vou te contar um pouco dessa história de bravos homens, mulheres, crianças e idosos. Bota Massa..!

O dia 12 de novembro de 2014 foi celebrado em frente ao cemitério de Santa Cruz, em Díli, capital de Timor, com uma missa em homenagem aos estudantes que foram assassinados brutalmente pelo exército indonésio durante uma manifestação a favor da independência de Timor Leste, em 12 de novembro de 1991. As ruas de Díli, no 12 de novembro do ano presente, foram tomadas por velas colocadas na frente das casas para homenagear os jovens estudantes que lutavam por liberdade e que estavam cansados de viver numa ditadura tão violenta e assassina. Estima-se que esta ditadura dizimou muito mais pessoas e as famílias dos estudantes. Os traumas ainda são bem vivos nos timorenses e nas construções das cidades.

Igreja de Montael, local onde o jovem estudante Sebastião Gomes foi assassinado pelo exército indonésio. Também o local no qual, dias depois, foi celebrada uma missa em homenagem ao estudante e onde começou a manifestação do dia 12 de novembro de 1991.

Naquele 12 de novembro de 1991, por volta das 8h da manhã, foi celebrada uma missa em homenagem ao líder estudantil Sebastião Gomes, que fora assassinado pelo exército indonésio na igreja de Montanael, em Díli. Após a celebração da missa, houve uma caminhada pelas principais ruas da cidade em direção ao cemitério onde iria ocorrer uma manifestação pró-independência em frente ao túmulo do falecido líder estudantil. Ao fim da celebração, no interior do cemitério, havia um grupo de militares indonésios à espera da saída dos manifestantes. Foi quando começaram os “tiros a queima roupa” e a série de mortes, prisões, estupros e fuzilamentos.

Imagem dos manifestantes voltando para dentro do cemitério após os soldados indonésios começarem a fuzilar os estudantes que regressavam às suas casas. Fotografia do documentário “Timor Lorosae: o massacre que ninguém viu”

Imagem dos manifestantes voltando para dentro do cemitério após os soldados indonésios começarem a fuzilar os estudantes que regressavam às suas casas. Fotografia do documentário “Timor Lorosae: o massacre que ninguém viu”

Os soldados indonésios mataram os estudantes em frente e no interior do cemitério. Nos arredores do local, mataram vários grupos de estudantes. Estes foram presos depois da manifestação. Os soldados também violentaram mulheres dentro do hospital militar indonésio. Durante o massacre, homens e mulheres se refugiaram dentro da capela que se encontra no interior do cemitério. Lá rezavam canções católicas como forma de se proteger da morte e/ou à espera dela.

Impressiona o teor de crueldade aplicado pelos soldados indonésios, que não perdoavam homens, mulheres, idosos e crianças. Calcula-se que só nesse massacre (pois houveram muitos e muitos outros), entre presos, mortos e desaparecidos, foram mais de 300 pessoas. Ao longo dos 24 anos de invasão indonésia estima-se a perda de mais de 300 mil. Além das torturas e dos massacres, uma das causas de tantas mortes foi a fome e a sede que assolavam a população durante esse período de 24 anos (de 1975 a 1999).

Ao assistir os documentários ou os relatos dos sobreviventes que ainda podem ser encontrados, atualmente, pelas ruas, casas e comércios em Díli, percebe-se semelhanças tão cruelmente intensas como as cometidas pelo holocausto nazista. Ao ouvir os relatos dos sobreviventes que atualmente vivem em na capital do país, uma série de arrepios tomam conta do corpo pois, durante 24 anos, Timor Leste foi esquecido pela humanidade e somente os exércitos australianos, estadunidense e indonésio sabiam o que estava ocorrendo nessas terras. Mas essas informações não eram divulgadas pelo mundo, já que os interesses pelo petróleo timorense, por parte da Austrália, e pelo território de Timor, por parte da Indonésia, eram muito maiores. Neste ponto, destaco os esforços que a população e o Estado de Portugal, o país colonizador de Timor até 1975, realizados a fim de que este país se tornasse um país independente. Tais esforços corriam na Europa através de manifestações nas ruas, das quais participaram artistas portugueses e população em geral, e também através de reuniões nas Nações Unidas, onde infelizmente as poderosas nações australianas e indonésias, mesmo nos anos 90, seguiam sendo apoiadas pelos países da alta cúpula da ONU.

No início dos anos 90, Austrália e Indonésia impediam o vazamento e a circulação de informações sobre o que estava ocorrendo no Timor Leste através do controle dos estrangeiros que entravam em Timor. Entretanto, durante a manifestação de 12 de novembro de 1991, um cinegrafista inglês, chamado Max Sthal, filmou toda a manifestação timorense, desde a igreja até o interior do cemitério. Max filmou o ataque do exército indonésio aos manifestantes: os gritos, os tiros, as mortes, as mães e os estudantes rezando no interior da capela antes de serem presos e torturados. As mortes foram registradas.

O cinegrafista Max Stahl. Imagem: google.com/imagens/Max Stahl

As tropas indonésias, durante a invasão ao interior do cemitério, dirigiam-se para prender os manifestantes que ainda estavam vivos. Max, então, escondeu as fitas com as gravações em um dos túmulos, antes de ser visto e preso. O cinegrafista foi um sujeito corajoso, pois era comum o exército indonésio matar estrangeiros com câmeras ou máquinas fotográficas. Dias depois, Max retornou ao cemitério e fez cópias delas para serem distribuídas às principais redes de televisão da Europa. Assim o ocidente descobre o que estava ocorrendo em Timor Leste e a ONU é pressionada a se manifestar.

Hoje, após 23 anos, o dia 12 de novembro foi marcado pela celebração de uma missa em homenagem a esses corajosos estudantes. Um palco foi armado na frente do cemitério e em torno de 200 pessoas acomodaram-se nas cadeiras para ver o filme que foi exibido, antes da missa, com as filmagens produzidas por Max no dia do massacre. Nela há o registro das cenas captadas antes, durante e após a missa de 1991, além das cenas fatídicas do massacre. Estando presente na celebração,  tive a oportunidade de ver o público timorense chorando, aplaudindo, gritando por liberdade e vibrando com as cenas ao repetir as canções entoadas pelos timorenses que estavam na manifestação de 23 anos atrás.

Dia 12 de novembro de 2014. A população timorense sobe no muro do cemitério de Santa Cruz para ver o documentário sobre o massacre e celebrar a missa em homenagem aos estudantes falecidos,

População timorense reunida para assistir as cenas gravadas por Max Stahl e celebrar a missa.

Cenas da gravação de Max Stahl durante o massacre de Santa Cruz, Díli

“Viva a Timor Leste..!”  e “Ha’u Hadomi Timor Leste” eram duas das principais frases repetidas pelo público. Foguetes coloridos eram lançados ao ar para agradecer o sacrifício daqueles corajosos trabalhadores e estudantes. Além disso, a população vestia camisas do Timor e balançava bandeiras do país. Após a celebração da missa, velas foram distribuídas à população, que entrou no cemitério para acendê-las ao longo do caminho que as pessoas percorreram, correndo, durante o massacre de 1991. As velas foram colocadas em forma de cruzes em muitos espaços ao longo do caminho do portão principal até a capela. Um momento de muita emoção e silêncio. Todos os participantes da missa se dirigiram ao interior do cemitério e rezaram pelos falecidos que foram barbaramente assassinados.

Jovens estudantes acendem velas em homenagem aos falecidos no massacre de novembro de 1991.

Velas acessas pelo caminho entre o portão principal do cemitério e a capela.

Jovens vão compondo cruzes de velas pelo caminho até a capela do cemitério.

Cruz no portão de entrada do cemitério onde muitos estudantes caíram mortos em 1991.

 

Caminho no interior do cemitério até a capela ao fundo.

Um “malai”, estrangeiro, representante da Revista o Viés, colocando velas no caminho até a capela do cemitério

 

Anos após o massacre e, posteriormente, após a independência de Timor, em 1999, há um  consenso de que é preciso separar a loucura do exército indonésio do povo indonésio. A população indonésia vivia em uma ditadura e não apoiava as ações repressivas do governo indonésio em solo timorense. Muitos indonésios ofereciam valiosas informações à resistência timorense escondida nas montanhas. Sabe-se que a população indonésia não podia se manifestar, afinal, para o governo indonésio. E não ter o apoio da sua população era uma vergonha perante as outras potências do mundo que já o pressionavam o país indonésio para se retirar do território a fim de que Timor se tornasse independente.   

Documentos e documentários sobre Timor (clique para acessar).

Cenas do Massacre de Santa Cruz, em 12/11/1991, filmadas por Max Stahl.

Timor Lorosa`e: o massacre que o mundo não viu

 “Ha’u Hadomi Timor-Leste..!” (Eu amo Timor Leste!), pelo viés de Igor S. Berned*.

*Igor é  Educador em Ciências e está em Timor Leste desenvolvendo propostas de Educação com crianças e adolescentes timorenses surdos, cegos, portadores de  síndrome de down e cadeirantes.

A arte dos encontros

Como dizia o amigo, a vida é a arte dos encontros . Podemos nos encontrar com uma poesia, com uma música, com a dança, com uma atividade física. E desses encontros entre nós e algo, uma pessoa que amamos, extraímos as energias que alimentam a vitalidade da vida, a vitalidade de nossos corpos e que nos faz vibrar. A vitalidade e o desejo misturam-se o tempo todo e é necessário estarmos abertos a esses encontros que nos fazem vibrar e sair dos nossos espaços de conforto. Saindo dos nossos espaços de conforto passamos a conhecer pessoas que desejam vibrar conosco através de amizades, afetos e consequentemente nos fazem amadurecer e desejar novos encontros e amadurecer o desejo.

O desejo são as forças do corpo pedindo passagem e são elas que compõem as nossas militâncias. Não existe militância politica (lutas feministas, lutas contra homofobia, lutas contra o racismo e todo tipo de ódio à diferença) sem o desejo. É o desejo que nos move a lutar por transformações da realidade na medida que aprendemos a não desejar a conservação das práticas e processos sociais de dominação das maiorias que detém o poder sobre as minorias. É o desejo que nos leva a percorrer o Viés à esquerda.

Seguindo à esquerda, eu convido você a conhecer através de encontros/entrevistas as pessoas que compõe a realidade em Timor Leste (TL) e que atuam nessa realidade com a população timorense através de ações sociais ao lado dos timorenses. A partir de agora, vamos produzir encontros com pessoas das mais diferentes nacionalidades (timorenses, espanhóis, brasileiros, australianos, portugueses, etc) que compõem a realidade de Timor.

Juntos, eu e você, vamos nos mover entre essas pessoas. Juntos vamos conhecer as suas histórias de vida e, através desses encontros, vamos extrair as energias que vão se conectar com as nossas e ativar ainda mais a vitalidade das nossas vidas.  Então, você está convidado a conhecer a história de vida do médico cubano Yusvani Roque Socorro. Ele trabalha no distrito de Hera em um posto de saúde, atua visitando as casas dos moradores da comunidade e também trabalha comigo na Clínica Liman Hamatuk (Tradução Tétum/L. Portuguesa: – Mãos dadas) no atendimento de crianças com diferenças especiais (crianças surdas, diferenças cognitivas, motoras, etc).

Vamos juntos nos encontrar com o médico Roque.

Posto de Saúde onde Roque trabalha no Timor Leste. Créditos: Igor S. Berned.

Igor/Revista o Viés (Igor:). Você vai gostar dessa poesia. Você entende muito a língua Tétum. Com os pacientes de Timor Leste você conversa em Tétum, em espanhol ou língua portuguesa?

YusvaniRoque (YR). Deixa eu ver a tua poesia?

Igor: Essa é a poesia:

Isin ho Hakarak (o corpo e o desejo).

Ha´u hakarak agora kolia nia hona (eu desejo agora falar no seu ouvido)
Ha´u hakarak haree nia matan (eu desejo ver os seus olhos)
Ha´u hakarak nakonu isin hotu (eu quero tocar em todo o seu corpo)
Ha´u hakarak nia isin hotu (eu desejo o seu corpo)
Ami kontente tebes Hamatuk. (nós seremos felizes juntos)

YR:  Ha’u hakarak kaer. O que é “Kaer” em Tétum?

Igor: “Kaer isin hotu”, essa poesia fiz para minha namorada que está em Santa Maria/RS/Brasil, então, essa expressão siginifica “eu vou beijar todo o seu corpo”.

YR: Eu escrevia muitas poesias e novelas mas faz um bom tempo que não escrevo, eu tenho uma coleção de poemas de quando eu estava no pré-universitário (período de preparação para as provas de seleção dos cursos universitários). Essa foi a etapa em que mais escrevi. Entre o secundário  e o universitário.

Igor: Com que idade que você começou a estudar? Quais eram as disicplinas?

YR. Aos cinco anos eu comecei o jardim e com 11 anos eu sai da escola normal para estudar numa escola de pré-iniciação desportiva.

Igor: O que é “escola de pré-iniciação desportiva”?

YR. Sim. É uma escola normal. De manha você estuda as disciplinas e de tarde no lugar da educação fisica você vai fazer treinamento diários para alguns esportes. Pode ser vôlei, basquetebol, natação, corrida etc.

Igor: Você escolheu qual esporte?

YR: Eu estudava pela manhã e treinava pela tarde. Eu estudei durante três anos na escola de iniciação desportiva e depois passei para a escola secundária de alto rendimento de voleibol. Depois decidi estudar numa escola secundária normal para me preparar para as provas de ingresso aos cursos universitário. Na escola eu estudava Ciências Naturais, Educação Musical, Geografia, Ciências, Matemática e Artes Plásticas.

Igor: Por que você escolheu fazer medicina?

YR:.  A vocação por medicina?

Igor: Sim!

YR: Eu era uma criança que ficava muitas vezes doente. Eu tinha dor de garganta, muita dor e febre. Eu quando ia às consultas via os livros e os receituários onde os médicos escreviam. E eu queria também escrever nos receituários. Eu queria escrever algum dia nesses receituários.

Eu estudei, preparei-me na escola e aos 15 e 16 anos percebi que nos desportes a carreira era de curta duração. Além disso, eu precisava crescer mais 2 centimetros. Eu tinha 1,92 m de altura e precisava um pouco mais. Então, eu não acreditei que iria crescer mais e comecei a estudar medicina esportiva.

Eu abandonei os esportes de alto rendimento, segui estudando e passei a fazer esportes numa escola normal.  Em Cuba as carreiras universitárias são planificadas a cada cinco anos (quinquênios).

Roque ministrando curso de formação em Timor. Autor desconhecido.

Igor: O que são os quinquênios?

YR: A cada cinco anos ocorre o planejamento dos profissionais que necessitam ser formados nas universidades para dar conta das necessidades fundamentais das comunidades regionais.

Igor: Você pode dar um exemplo de como esse processo funciona?

YR: Numa região, a cada cinco anos, o governo estuda quantos profissionais precisam ser formados nas universidades para atender as necessidades das cidades. Precisa-se formar tantos médicos, tantos engenheiros, tantos professores, tantos arquitetos que vão trabalhar em todas as regiões do país.  As fábricas, os hospitais, as escolas precisam de profissionais preparados para atender as demandas. Como uma fábrica vai funcionar se não tem profissionais preparados para fazer ela funcionar.

Você não pode abrir uma fábrica e depois preparar os profissionais que vão trabalhar nela. Você precisa de mão de obra preparada e e especializada para atender as necessidades locais. Em Cuba, as coisas são assim. Precisa de planejamento e organização.

Igor: Qual o nome da tua cidade?

YR:. Guinness.

Igor: O que é Guinness?

YR: É um tipo de planta que usamos muito para fazer papalote.

Igor: O que é papalote?

YR:  É o que no Brasil se chama papagaio sabe? O vento emburra e você vai soltando a cordinha e vai subindo o papalote.

Igor: As crianças da minha região (Alegrete/RS) chamam pandorga ou pipa.

Igor: O teu filho tem quantos anos? E quantos idiomas ele fala?

YR: Ele tem 6 anos e fala a Língua espanhola, Língua Tétum e a Língua Portuguesa.

Igor: Nossa que sensacional, cara! Teu filho tem seis anos e fala três idiomas. Ele é timorense? Qual o nome dele?

YR: Ele é cubano. O nome dele é Haiker Ahmad y Jennifer.

Igor: Todas as cidades em Cuba têm universidades?

YR: Sim! Há mais ou menos 30 anos atrás as universidades ficavam nas cidades principais das províncias. Agora já ocorreu a municipalização e todas as cidades têm universidades. Pois os trabalhadores que trabalhavam durante o dia precisavam estudar durante a noite. Então todos os municípios precisavam ter universidades para trabalhadores. Antes, para poder estudar, os trabalhadores precisavam ir para outras cidades e isso dificultava o acesso à educação superior.

Agora os trabalhadores podem estudar á noite e de dia trabalhar. Pois era preciso expandir a rede de universidades para todos os municípios cubanos para que os trabalhadores mais velhos tivessem acesso aos cursos universitários. Os trabalhadores trabalham durante o dia e agora há cursos que eles podem ter acesso durante a noite.

Igor: Além de médico, você já teve outro emprego?

YR: Eu já fui professor universitário em uma universidade para trabalhadores.

Igor: Como foi para você a experiência de ser professor?

YR: Bem, meus alunos eram mais velhos e experientes do que eu. Eu era praticamente recém formado em Medicina. Tinha apenas dois anos de trabalho em medicina. Eu trabalhava numa área de difícil acesso como médico nas comunidades rurais de Guinness. No hospital eu trabalhava duas vezes por semana na noite e trabalhava durante o resto da semana na universidade para trabalhadores. Eu era professor de Psicologia e de Metodologia da Investigação.

Igor: Como Timor Leste(TL) surgiu na sua vida?

YR: Eu, depois de ter trabalhado como médico em comunidades rurais durante alguns anos, decidi me oferecer para sair em missões internacionais. Eu estava disposto a prestar serviços gratuitos para qualquer parte do mundo que eu fosse enviado. Uma noite eu estava numa “penha” (um local de encontros entre pessoas que gostam de ler, declamar poesia e divulgar suas obras, onde se canta e dança) com amigos e um deles havia falado com o chefe da província que eu precisava estar de manhã na direção para tratar da minha viagem a TL. Na direção provincial eu recebi informações sobre como e quando iria viajar e quais os serviços que iria prestar a Timor.

Posto de Saúde onde Roque trabalha em Timor. Créditos: Igor S. Berned.

Igor: Você me disse que trabalhava muito, mas como você se divertia em Cuba?

YR: Eu frequentava muito a noite em Guinness. Eu ia muito a discotecas, conversava com amigos em reuniões nas casas deles e ia em cabarés.

Igor: O que é um cabaré?

YR: Não(Risos) Cabaré não é o que você esta pensando. Em Cuba, cabaré é o lugar que você vê artistas do teatro, da música, dança em um lugar formal. As pessoas vão de noite, mas levam seus filhos. As pessoas expõem suas obras e você precisa comprar uma mesa para poder beber e ver os espetáculos.

Igor: O governo cubano valoriza as produções dos artísticas cubanos?

YR: Sim! Em Cuba há escolas de belas artes. Nas escolas você vai ter a iniciação a música, dança, artes plásticas. Em todas as cidades existe centros culturais onde ocorre eventos ou encontros de pessoas que amam as belas artes, a literatura e a música. Todas as cidades têm centros culturais com bibliotecas.

Igor: Por semana quantas pessoas em média você atende no posto de saúde e na comunidade com  as visitas?

YR: Depende da semana. Tem dias que eu atendo 30 pessoas. Em outros dias eu atendo 60 pessoas. Ao total na comunidade há dias que tenho que atender 110 pessoas. Isso das 8h da manha até as 17 horas.

Igor: Teu trabalho é muito puxado, né?

YR: Eu gosto muito. Gosto muito de estar com as pessoas ajudando elas.

Roque e Igor. Créditos: Keu Apoema.

 

A arte dos encontros, pelo viés de Igor S. Berned*.

*Igor é  Educador em Ciências e está em Timor Leste desenvolvendo propostas de Educação com crianças e adolescentes timorenses surdos, cegos, portadores de  síndrome de down e cadeirantes.

Diário de um sujeito moderno

Por mais distante que o errante navegante,

Ele jamais te esqueceria!

(Versos da canção Terra interpretada por Caetano Veloso)

De dentro da nossa canoa seguimos navegando e percebendo lentamente as paisagens de Timor: as curvas das montanhas, as suas formas e cores, as árvores, o vento, seu som e sua energia produzidos ao beijar as ondas do mar. Assim, seguimos navegando.  A energia que arrepia a pele é a força que nos move para dentro do mar, se damos atenção aos sons deste e das suas ondas. Entre os malaios (os estrangeiros das mais diversas nacionalidades) que freqüentam as praias de Timor, há o medo de encontrar debaixo das águas os perigosos crocodilos de água salgada. Esses imensos animais migram do norte da Austrália e vagam pelo litoral timorense. Além das roupas de banho, os sujeitos que entram nas águas azuis ou transparentes para se refrescar carregam consigo também o medo e o cuidado, pois, na deliciosa água salgada do Timor, eles também podem estar lá se refrescando. Mas, em uma cidade como Dili, a capital do Timor, as sensações térmicas superam os 35 graus e, assim, é muito difícil não se deixar seduzir pelo mar e pelas praias ao redor da cidade.

Por isso, arriscar-se é preciso!

Isso não é diferente dos nossos desafios. Quando desejamos fazer algo que temos clareza de que nos faz bem, arriscar-se é preciso para tornar concreto um desejo que, seja qual for, sempre vai existir os perigos, os riscos, e/ou as suas dificuldades. Por isso, sem medo de se arriscar, convido você que esta comigo no mar e, agora, longe da praia, a deixar o nosso barco. Mas para onde?

Eu respondo: Para baixo da água!

Vamos e mergulhar nas profundezas desses mares. Eu e você nadando bem de baixo da água. Vendo os peixes, os corais que estão ali vivendo suas vidas dançando conforme o movimento das mares. Mas, para nadar por esses ambientes, precisamos mergulhar fundo e estar abertos ao inesperado, ao que não temos controle. Eu e você precisamos nos desapegar do intenso desejo de controlar as situações e prever resultados, enfim, precisamos estar abertos ao desconhecido. Então, não tenha medo!

Vamos mergulhando devagar, pois, precisamos do silêncio, precisamos parar para escutar mais, ouvir mais, sentir mais a presença da nossa vida em nossos corpos, pois dessa forma vamos começar a viver sensações que vão produzir sentido. Os nossos corpos vão, assim, aprender a criar relação com os acontecimentos. Vamos nos sentir presentes no presente. Vamos aprender assim a compor o momento presente. A estar realmente nele de corpo inteiro.

De dentro da água vamos dar atenção ao que realmente nos acontece quando dizemos que alguma coisa aconteceu. Para isso, dar atenção as sensações do corpo, aos seus calafrios, a temperatura da água, exige de nos um tempo para se desligar desse sujeito moderno que nos tornamos na sociedade de informação na qual vivemos. Mas, quem é esse sujeito moderno? Isso é o que nos tornamos.

(Imagens na Praia do Dolar. Fotografias cedidas por Adriano Gonçalves.)

O sujeito moderno é o cara que está sempre com o coco ocupado (pensamento cheio de informações, cobranças e responsabilidades). Eu me identifico com esse sujeito. Essa casca que reduzimos as nossas vidas faz acreditarmos que estamos sempre prontos para fazer todas as atividades possíveis. Nos seduz a acreditar que sempre vamos dar conta das nossas atividades, que podemos preencher o nosso tempo com ações e responsabilidades que exigem de nós mesmos muitas cobranças. Elas se tornam cada vez mais um grande fardo que exige do corpo o tempo todo atenção às responsabilidades. Acreditamos que pode dar conta de tudo, mas quando isso não acontece, nós padecemos. Ficamos doentes ou de mal humor. Passamos a desacreditar nas nossas potências.

Vejo esse processo em mim e em muitas pessoas que conheço. Bastar olhar para minha mesa de estudo que está em meu quarto. Nela há muitos livros e tantos capítulos para ler. Livros incríveis, mas que o gostoso desejo de ler todos se canaliza em angústia devido ao fato de acabar não lendo nada. Assim, coloca-se um fardo nas costas que vai debilitando aos poucos o corpo. Esse  é um pouco da vida de um homem moderno.

Ele preenche seu tempo inteiro com atividades que ocupam o corpo e a mente. Assim, desliga-se do presente. Desliga-se de compreender o que lhe acontece. Ele, de tanto receber e produzir informação, fica ansioso, impulsivo; aos poucos perde a capacidade de se importar com o que nutre a própria vida, como, por exemplo, o amor e seus deliciosos afetos. Afetos daqueles ou daquelas que nos amam. O sujeito moderno passa a desacreditar nos encontros, de perceber o que pode ser criado através deles, nas alegrias de conhecer outras pessoas e criar relações de afeto consigo e com os outros.

Os acontecimentos pedem passagem pela vida, mas a mente ocupada de informações enfraquece as forças do corpo no momento em que pode retirar algo do acontecimento e ser afetado por ele. O sorriso de uma criança passa a não ter mais graça, o sorriso dos nossos pais ao nos ver passam despercebidos, a vitória de um amigo que deseja compartilhar a sua alegria não é percebida como também parte das nossas vidas.

A subjetividade que compõe o homem e a mulher moderna surge com o neoliberalismo. Ele nos fez acreditar que somos empreendedores de nós mesmos. Tornamo-nos então sujeitos que têm ouvidos e olhos sadios, mas, nas práticas cotidianas, estão fechados para as sensações doces que alegram o corpo, enfim, fechados para o calor dos encontros e/ou para o calor dos outros corpos. Aqui já estamos entrando nas profundezas desse imenso oceano que é a nossa própria vida: infinita, mas que também é frágil e precisa de atenção.

As profundezas são o lugar que precisamos aprender a navegar e compreender. É  nesse lugar que nossas singularidades vibram e pedem passagem. É nesse lugar que tornamos também militantes. É nesse lugar que o corpo produz as energias que animam a vida, animam a vontade de viver e experimentar a vida sem pudor, experimentar a vida sem vergonha. Sem vergonha de dançar, sem vergonha de chegar nas pessoas que estamos afim de ficar, sem vergonha de falar o que tem que ser dito: “- Sem medo de falar na cara!”

Você já se permitiu andar por lugares que você sempre andou e parou para dar atenção ao que nunca viu? Aos detalhes do rosto de alguém que convive com você? Ao modo como ela sorri? Parece que só fazemos isso quando alguém que amamos está muito bravo. Não é? Você já se permitiu dar atenção aos detalhes das mãos dos seus afetos quando ele ou ela estão segurando a sua mão? Já se permitiu andar nu dentro de casa? Você já dançou aquela música que te anima ao máximo?

Essas perguntas parecem bobas, não é? Será mesmo que são bobas? Basta lembrar que já sabemos que a felicidade tão prometida e vendida pela televisão é apenas uma grande ilusão de ótica. Se já sabemos disso, como e de que forma vamos conseguir sentir uma alegria que possa ser chamada de verdadeira? Eu acredito que são os pequenos detalhes, as pequenas ações – como, por exemplo, permitir-se esvaziar a mente dessas obrigações que por impulsão preenchem o nosso tempo. Olhar para determinadas atividades que são oferecidas para nós realizarmos e dizer: “- Não, muito obrigado! Já estou cheio de responsabilidades.”

Aprender a ouvir mais, a sentir mais. A angústia é fundamental nesse processo de sentir mais e, enfim, de aprendermos a compreender o próprio corpo e sua relação com a vida que temos. As angústias são as forças do corpo nos dizendo algo que a consciência não sabe dizer: são as forças do corpo pedindo passagem (Suely Rolnik, trecho do livro Cartografia Sentimental). Eu acredito no que podemos criar nos encontros com as pessoas que amamos e estar abertos a outros encontros. Se permitir dançar em casa quando toca aquela música preferida. Cantar bem alto, gritar bem alto, deixar que nossas forças realmente se manifestem pelo mundo através dos nossos encontros. Tomar um chimarrão ou um café da manha em locais que de costume não damos muita atenção dentro de casa. Se você quer mudar a sua vida, comece pelo seu quarto. É tão gostoso ver que os moveis não estão mais nos mesmos locais. Sair por aí a seduzir e se permitir ser seduzido e acreditar na alegria que é experimentar sensações novas, sensações desconhecidas pela vida.

Bota Massa!

Diario de um sujeito moderno, pelo viés de Igor S. Berned*.

*Igor é  Educador em Ciências e está em Timor Leste desenvolvendo propostas de Educação com crianças e adolescentes timorenses surdos, cegos, portadores de  síndrome de down e cadeirantes.

 

A Língua em Timor Leste: Tétum

Em nossa canoa, seguimos em frente curtindo as paisagens de Timor. Elas são compostas pela natureza e também pelas intensidades dos encontros com pessoas, músicas, poesia, com a política, enfim, com tudo que modifica o pensamento e impulsiona a transformação do pensamento e ampliando o desejo de viver e experimentar o desconhecido.

Hoje, através da poesia, vamos conhecer um pouco mais de um idioma diferente da língua a qual nos acostumamos a falar e que também se diferencia, e muito, da língua espanhola latina e da língua inglesa.

O desafio de trabalhar com a educação de crianças, jovens e adultos surdos, cegos, paralisados cerebrais e outras diferenças é interessantíssimo. Um desafio leva a outro e, assim, consigo trabalhar e me divertir ao ver o sorriso das mães e das crianças, com as quais eu realizo as ações pedagógicas de alfabetização e de estimulação física e cognitiva. O trabalho em educação que desenvolvo exige que eu aprenda uma língua completamente diferente da língua portuguesa: O Tétum. O Tétum é a primeira língua nacional de Timor Leste – sendo o segundo idioma oficial a língua portuguesa, mas um percentual muito pequeno da população conhece-a Nos distritos de Timor há mais de 15 línguas maternas catalogadas: Fataluko, Makasai, Makaleiro, Mambai, Kemak, Tokodede entre outras tantas.

A população timorense em geral fala no mínimo três idiomas: a língua materna, o Tétum e o Barassa Indonésio. Muitos timorenses falam, além desses idiomas, o Inglês e o Português. O inglês e a língua indonésia são no Timor chamadas oficialmente de línguas de trabalho, pois, no comércio timorense há muitos patrões e clientes que são indonésios ou são de outros países do mundo como a China, Austrália, Filipinas, Malásia e que falam a língua inglesa.

Durante o processo de aprender a língua Tétum, eu percebo que esse idioma diferencia-se da língua portuguesa por razões de estrutura semântica e variação em número. Por exemplo, no Tétum não há os verbos “ser” e “estar”.

Além disso, os verbos não são conjugados no plural. Às vezes, um simples “s” muda totalmente o sentido da palavra. Por exemplo: Mana (menina) Manas (quente) Ai-manas (pimenta). Na língua portuguesa nós falamos: Menino e Menina ou, como falamos muito em Alegrete/RS/Brasil e outras cidades do Rio Grande do Sul, “Guria” e “Guri”. Já, na língua Tétum nós falamos: Mana sira e Ma`un sira

 

Um pouco de poesia

E por falar em saudade, vou aproveitar a frase de Vinicius de Moraes para recitar uma poesia que criei em Tétum a partir das palavras que aprendi com as aulas particulares que estou participando com um educador timorense.

Isin ho Hakarak (em língua portuguesa: o corpo e o desejo).

Ha´u hakarak agora kolia nia hona (eu desejo agora falar no seu ouvido)
Ha´u hakarak haree nia matan (eu desejo ver os seus olhos)
Ha´u hakarak nakonu isin hotu (eu quero tocar em todo o seu corpo)
Ha´u hakarak nia isin hotu (eu desejo o seu corpo)
Ami kontente loss Hamatuk. (nós seremos felizes juntos)

Aprender a língua popular do Timor está sendo uma experiência incrível. A língua portuguesa é um dos idiomas oficiais de Timor Leste, contudo, ela é falada principalmente pela elite do país. Elite acadêmica, política e econômica. E, no meu trabalho, falar Tétum com as crianças e com as mães é fundamental.

Outros exemplos:

Diak Ka lae? (como você está?)

Ha´u kontente loss. (eu estou feliz)

Iha ne`ebe? (onde?)

Ne`e saída? (o que é isso?)

Ha`u gosta Busa sira! (eu gosto de gatas).

Essas são as frases mais simples da língua timorense. Mas é interessante perceber quando você está aprendendo. No início comecei a entender pequenas perguntas: Ita hosi nebe`e? (você é da onde?).

Agora, depois de dois meses estudando durante dois encontros semanais com um educador timorense, estou conseguindo arquitetar frases um pouco maiores e entender de vez em quando o contexto dos diálogos entre timorenses quando eles falam de um modo mais pausado.

 

Quer tentar ler um pouco em língua Tétum? 

 “- REZISTE KATAK HATENE REKONSILIA DIVERJENSIAS, PASADU NIAN HORIN HASORU DEZAFIUS PREENTE NO FUTURU NIAN.”

O que será que será? Seguindo o verso do Chico Buarque vamos tentar compreender essa frase que encontrei no Hall de acesso ao Museu da Resistência em Dili.

O que você compreendeu?

Ela pode ser compreendida em seu contexto como o que ocorreu no passado do Timor não pode ser esquecido, mas, agora é preciso a reconciliação com a Indonésia.

Agora, peço a você que de dentro da nossa canoa, olhe para o lado e veja qual animal às formações rochosas lembram?

Se prestar atenção, você irá perceber que ela lembra um crocodilo. O Crocodilo é o animal sagrado do Timor. Há uma lenda que circula pelo Timor e que é ensinada de geração em geração que a ilha de Timor nasceu a partir do descanso de um grande e velho crocodilo.

A lenda é mais assim o seu final: “- O crocodilo cansado de navegar e com sua imensa sabedoria, fala ao menino que estava sobre as suas costas que irá para, pois, está muito cansado. O crocodilo, então, se transforma em uma ilha….!”

A ilha de Timor.

Um pouco mais de Guimarães Rosa.

“- escrevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito. Vivo no infinito; o momento não conta. Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida, também fui brasileiro. Quando escrevo, repito o que vivi antes. E para estas duas vidas um léxico apenas não me é suficiente. Em outras palavras: gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio. O crocodilo vem ao mundo como um magister da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano, um mar da sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade.

Gostaria de ser um crocodilo, porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. – Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade!

Lembrando novamente do texto de Guimarães e das minhas brincadeiras. O Timor está no infinito. Aqui sigo percorrendo essas maravilhosas terras, conhecendo amigos timorenses e de outros cantos do mundo. Nas costas do imenso crocodilo há muita vida. Há muitos bons encontros e também há muito que se aprender. Assim, sigo a navegar através dos textos que expressam as sensações que esses encontros produzem em mim. No coração, no pensamento, nas profundezas infinitas que é a vida de todos nós.

“- Bota Massa…!”

Para saber um pouco mais sobre informações a respeito da História do Timor Leste, você pode acessar o link abaixo e ver o documentário: “Timor Lorosa´e: ó massacre que o mundo não viu!”

https://www.youtube.com/watch?v=0EzQlaG1DmE 

A língua em Timor Leste, pelo viés de Igor S. Berned*.

*Igor é  Educador em Ciências e está em Timor Leste desenvolvendo propostas de Educação com crianças e adolescentes timorenses surdos, cegos, portadores de  síndrome de down e cadeirantes.

 

Navegando em Timor

“- Qual é irmão? Tá com saudade da praia, é, Nego?

A cartografia de hoje vai começar com um trecho adaptado de uma entrevista de João Guimarães Rosa a Günter Lorenz – “Diálogo com Guimarães Rosa”. Uso ela como ferramenta para dar passagem às minhas sensações vivas no corpo para o mundo. Elas, hoje, vão se manifestar movidas pelas saudades e por uma série de impressões que tive logo no começo da minha adaptação à nova realidade. Falar um pouco dos processos em curso que muitos de nós que saímos das nossas cidades vivemos e que, agora, quem sabe pelo fato de ficar um ano longe do Brasil e sem estar presente fisicamente com amigos, pais e namorada, se mostra uma experiência intensa. Falar um pouco dos processos em pleno funcionamento em relação a sair dos seus territórios físicos e afetivo – amizades, relações profissionais, amores, desamores, das deliciosas parcerias em Santa Maria (RS) – e aos poucos penetrar num outro lugar que a sua imaginação não irá visualizar, mas irá conseguir imaginar somente se você frequentar e viver nesse novo lugar. Essas sensações vão ser traduzidas através de palavras, vão compor o cenário no qual convido você a navegar comigo à deriva pelo infinito.

Bora navegar, gurizada..?

Pegue seu cigarro ou pegue sua bebida ou não leve nada consigo, apenas a vontade de navegar curtindo as paisagens que vou lhe mostrar. Não se preocupe. Você não precisa fazer esforço para remar. Só peço que escute o som do mar, sinta o vento no rosto, permita-se sentir os calafrios e dê atenção ao que eles lhe dizem. Veja essas incríveis montanhas e relevos que vou lhe mostrar através das fotografias, da escrita, das risadas, enfim, se permita entrar no meu barco e vamos navegar à deriva, movidos pelo balanço das águas e dos ventos que vão nos movendo por essa aventura incrível que é não ter medo de viver a vida.

Estamos ainda na terra. Estamos sobre a areia. Você subiu no barco e logo procura um lugar gostoso para sentar. Fique à vontade para escolher. Ofereço-lhe o tempo que desejar. Não se preocupe, após completar três meses vivendo em Díli, já aprendi algumas habilidades que a arte de remar em mares agitados oferece ao remador. Agora vou empurrar nosso pequeno barco de madeira composto pelas árvores que ficam à margem das praias e que a sabedoria adquirida de geração a geração há mais de cinco séculos foi aprimorando as técnicas de se manter firme e forte em meio às ondas do agitado e, às vezes calmo, mar de Timor.

Pronto! Já subi na canoa. Agora vamos precisar um pouco mais de força, na qual encontro fôlego para entrar no mar com o trecho da entrevista de Guimarães Rosa.

“Escrevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito. Vivo no infinito; o momento não conta. Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida, também fui brasileiro e me chamava “Igor da Silveira Berned”. Quando escrevo, repito o que vivi antes. E para estas duas vidas um léxico apenas não me é suficiente. Em outras palavras: gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio Caverá (rio que passa perto da minha casa em Alegrete). O crocodilo vem ao mundo como um magister da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano, um mar da sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade.

Gostaria de ser um crocodilo, porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. – Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade!

São impressionantes os encontros que temos com letras de músicas, poemas, textos literários e certas entrevistas que traduzem sentimentos amorosos, de dor, dificuldades e momentos de sabedoria e alegria que experienciamos. Essas letras nos empurram a olhar de frente para os desafios. Parece que há sempre um trecho feito especialmente para nós. Como se o autor da obra pensasse:

“- Acho que esse verso vai ser perfeito para ela…!”

O que é verdade é que os versos encontrados nessas obras podem traduzir o que fizemos ou deixamos de fazer com alguém ou com nós mesmos. Um desses encontros foi com o trecho da entrevista de Guimarães Rosa.

O infinito

Antes de vir para Timor Leste, brincava com meus amigos afirmando que o lugar onde iria viver era tão longe e tão distante das minhas referências amorosas que poderia ser chamado infinito. Aprendi com as minhas leituras e com as pessoas em que convivi a viver “à deriva”. Libertei-me de religiões e falsos guias que orientavam minha vida. Decidi viver os encontros com as pessoas nas minhas oficinas ou nos bares e eventos culturais da cidade. Decidi perceber os outros como possíveis amigos e amigas e me desapegar de uma vida repleta de planejamentos para o futuro, me desapegar das promessas, das sensações de segurança que criava com as pessoas que tive minhas relações amorosas. Não tenho o que reclamar, aprendi muito com essas pessoas, se pudesse viver novamente o que vivi mais uma vez, eu me jogaria de cabeça nas profundezas dessas sensações.

Idealizações e promessas podem machucar. Acredito que quando idealizamos demais a vida, deixamos de estar com os pés no presente e deixamos de olhar e aprender com o que nos acontece. Assim, decidi fazer escolhas. Escolhas difíceis e que exigiam viver à margem dessas representações que aprendemos em casa e depois na escola e na faculdade,  em se guiar sempre é trilhar o caminho mais seguro. Percorrendo ele, aprendemos de verdade a deixar de caminhar. A parar. A ficar imobilizado vivendo dentro de representações que nós mesmos construímos: a vida aprisionada.

Falo de mim, falo da minha vida, respeito ao máximo (isso que falo não é para lhe agradar, mas para expressar o que sinto) as escolhas dos outros. Fico feliz em ver alegria de muitos homens e mulheres que conseguem realizar seus sonhos casando em igrejas e desejando viver a vida como se fosse uma novela das oito. Mas sei o que realmente não desejo para mim.

Quando vivemos nas seguranças afetivas e profissionais, aprendemos a deixar de viver as intensidades das incertezas, ficamos com medo do inesperado, aprendemos a ter medo do que pode ser mágico e maravilhoso. Mas, como vivemos nessas representações que nos impedem de ver e imaginar o que existe do outro lado da muralha. Deixamos de viver e sentir a vida pulsando em seu corpo, pedindo passagem a outras pessoas, a produzir outras histórias.

A fim de viver o que era possível viver nas amizades, nas viagens a lugares que desejava viver, nos encontros com pessoas que gostam dos assuntos – livros, programas, política, arte etc – que desejo falar e experimentar. Enfim, decidi viver a minha vida comigo. E, a partir de viver esses desejos, viver ao lado dos outros. Aprendendo junto, amadurecendo juntos, me aproximando,

O lema era: “- a cada encontro, espero das pessoas que sinto uma energia gostosa, no mínimo, uma amizade…!”

Esse era um dos meus guias nas minhas caminhadas pelas ruas de Santa Maria (RS), Brasil. Em Santa Maria pessoas interessantes há por todos os lados, por todas as ruas, por todos movimentos sociais da cidade. Muitas delas gostam de frequentar bares à noite e nesses lugares, depois do trabalho na escola, sentia-me muito bem em encontrá-las.

O que deixa essas pessoas interessantes é a sua habilidade (in)consciente de estar abertas a trocas de ideias e afetos com pessoas desconhecidas. Falam alto, não tem medo de dar a sua opinião sobre os assuntos, riem muito sem ter vergonha de se preocupar com os outros, bebem boas doses de álcool, falam palavra, e ficam cada vez mais belas. É dessa atmosfera que vive com intensa alegria, perto de pessoas extremamente interessantes que tive que fazer escolhas.

Decidi ir embora e seguir estudando e trabalhando com a educação de crianças, jovens e adultos surdos, cegos, paralisados e com outras diferenças em um lugar que viveu durante 24 anos na mata fechada que reveste e compõe as montanhas. Quanto tempo? 24horas? 24 dias? 24 meses? Sim, vinte e quatro ANOS, “MEU NEGO, MINHA NEGA..!”  e fui morar em outro lugar. Precisava sair de Santa Maria e viver outras experiências profissionais. 

NAVEGANDO EM TIMOR, pelo viés de Igor S. Berned*

*Igor é  Educador em Ciências e está em Timor Leste desenvolvendo propostas de Educação com crianças e adolescentes timorenses surdos, cegos, portadores de  síndrome de down e cadeirantes.

 

 

 

 

 

O futebol em Timor Leste

A Copa do Mundo no Brasil repercutiu em Timor Leste. Ela foi tema presente em muitos diálogos entre crianças, jovens e adultos timorenses durante os últimos dois meses. Nas ruas, nas feiras de artesanato, hortifruti granjeiro e nas lojas havia bandeiras e camisas das várias seleções à venda. Por todos os lados da capital Díli, eu vi bandeiras e camisas de muitos times: Alemanha, Espanha, Inglaterra, Brasil, Portugal, França e Itália eram as mais vendidas.

As crianças e adolescentes vestiam-se principalmente com a camisa 7 da seleção portuguesa, a qual é usada pelo jogador Cristiano Ronaldo. Em carros, bicicletas e motos, os timorenses demonstravam sua empolgação ao torcer pela seleção portuguesa. Nesses veículos, os muitos jovens timorenses passeavam pelas ruas buzinando e demonstrando alegria nas vésperas dos dois primeiros jogos da seleção europeia.

Os timorenses mostravam sua torcida e fé pela classificação de Portugal nas quartas de finais da competição, mas tal empolgação foi diminuindo na medida em que os resultados das duas primeiras partidas da seleção portuguesa surgiram. A derrota portuguesa para a seleção alemã e depois o empate diante da seleção estadunidense foram o suficiente para apagar a chama que iluminava a fé na classificação de Portugal. Depois desses jogos não havia mais tantas bandeiras portuguesas como até então.

Mas isso não fez os timorenses deixarem de ver os demais jogos das outras seleções, das quais até então não se havia visto camisas e bandeiras. Durante os clássicos entre os times, era comum encontrar muitos timorenses reunidos no estacionamento do Palácio do Governo para acompanhar os jogos que ocorriam durante a madrugada de Timor. Se no Brasil, por exemplo, a seleção brasileira jogasse às 17 horas de uma terça feira, em Timor, muitos compareciam ao estacionamento às 5 horas da madrugada de quarta feira para assistir a partida.

Nas partidas em que as seleções da Alemanha, Brasil, Itália, Inglaterra, Holanda e Argentina jogavam, os timorenses lotavam, com suas motos, o estacionamento do Palácio do Governo.

As bandeiras e camisas das seleções brasileira e espanhola apareciam mais no cotidiano da cidade. Meninos e meninas caminhavam pelas ruas com elas. Na medida em que a seleção alemã foi se destacando nas partidas, já surgiam pelas ruas de Díli muitos timorenses vestidos com o uniforme dessa seleção. Em meio aos jogos também era comum ver em Díli camisas das equipes espanholas Barcelona e Real Madrid, e das equipes inglesas Chelsea e Manchester United. Estas são as camisas mais usadas e vendidas nas lojas.

Ao percorrer a cidade em táxis, encontravam-se muitas bandeiras de várias seleções. Ao me apresentar como brasileiro, muitos taxistas falavam em inglês ou em Tétum “- Brasil sede da copa do mundo!” ou falavam os nomes dos jogadores que compõe equipes como Real Madrid e Barcelona: “- Marcelo!”; “- Neymar!”, “- Oscar!”.

O futebol é uma paixão timorense. Você chega a essa conclusão ao percorrer ruas e avenidas em Díli e ao viajar pelas estradas no interior de Timor Leste. É comum encontrar muitos campos de futebol repletos de jogadores e torcedores das mais diversas idades que admiram o esporte tão popular. Durante a semana, ao percorrer o caminho do trabalho, passo em frente a um campo de futebol que nos fins de tarde está repleto de jovens jogadores e também de torcedores que riem e se divertem vendo as jogadas. Quando uma grande jogada é criada e se torna um gol, todos aplaudem.

A torcida ao redor do campo de futebol pode assistir ao jogo não só na terra, mas também na água como mostra a fotografia.

Os campos de futebol estão espalhados por Díli e pelos distritos não é diferente. Agora, vou exibir a você caro leitor e leitora dos diários Derivas no Infinito uma série de imagens registradas a partir de uma viagem entre Díli e Malbara (ao norte de Díli) onde consegui registrar uma série de campos de futebol.

A Copa, a partir dos canais de TV na Ásia, e as manifestações no Brasil.

         A residência que alugo em Díli possui televisão a cabo que transmite propagandas, programas de auditório e telejornais de muitas redes de televisão espalhadas pelos tantos países da Ásia. Os idiomas dos programas são diversos: Mandarim chinês, Inglês australiano, estadunidense e britânico e, ainda, há canais com o barasa indonésio.

A partir de alguns canais é possível obter informações em língua inglesa sobre o Brasil. Entre as redes de televisão, destaco BBC, Al Jazeera e CNN. Esses canais deram ampla atenção aos protestos que ocorriam simultaneamente aos jogos da seleção brasileira. Além da copa do mundo, as noticias mais recorrentes eram sobre os conflitos no Iraque, na Ucrânia e os ataques de Israel ao povo palestino. Algo que me impressionou ao ligar a televisão e passar os canais (do 1 ao 68) foi identificar o fluxo diário de pessoas pela Ásia, Oceania e Oriente Médio.

São milhares de pessoas se deslocando entre os países desses continentes e com as mais diversas origens e destinos: Hong Kong, Pequim, Cingapura, Darwin, Tóquio, Jacarta, etc. Isso ocorre devido a altíssima densidade demográfica dessas regiões, o que impulsiona negociações milionárias entre empresas europeias, chinesas, japonesas, filipinas, coreanas, anglo-saxônicas e latino-americanas de sul ao norte e do leste ao oeste da Ásia. Há também uma produção e um fluxo intenso de informações. Esses fatores vão refletir para que nas programações das maiores redes de televisão – como a BBC, Al Jazeera e CNN – haja correspondentes de vários países do mundo, inclusive do Brasil.

As cidades brasileiras onde estavam os correspondentes eram o Rio de Janeiro e São Paulo. Durante a Copa, via-se pela televisão os protestos realizados em São Paulo  (capital) e no Rio de Janeiro.

As opiniões sobre os protestos entre esses canais eram polarizadas. De um lado estava a CNN, que realizava repostagens através de seus telejornais, classificando os manifestantes como grupos que desejavam atrapalhar as atividades programadas para a realização dos jogos.

Do outro lado, os canais de televisão Al Jazeera e BBC apresentavam entrevistas com autoridades municipais e estaduais do Rio de Janeiro. O principal assunto das entrevistas eram a segurança dos turistas estrangeiros e opressão policial sobre as comunidades das principais favelas que foram ocupadas pelas UPPs.

Algo que me surpreendeu foi ver a série de entrevistas que os repórteres da BBC realizavam com moradores das favelas do Rio. Eles subiam os morros para conhecer a realidade da Rocinha, do conjunto da Maré e de outros morros que foram sitiados pelas UPP’s. Os jornalistas entrevistavam ativistas políticos e representantes de organizações não governamentais que desenvolvem ações voltadas à cultura e à formação escolar e técnica das crianças a fim de evitar que elas fossem, segundo as palavras de um dos jornalistas, “- capturadas pelo tráfico de drogas”.

 As entrevistas com os moradores geravam informações diferentes das utilizadas pelas autoridades do Rio de Janeiro para justificar as ações positivas das UPPs. Assim, esses profissionais convidavam as autoridades cariocas, como o governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes, para esclarecer o conflito de informações entre os dados sobre segurança pública e desenvolvimento social nas comunidades e o excesso de autoridade policial nos morros relatados pelos moradores. Nas entrevistas com os moradores dos morros era corrente eles falarem sobre os abusos policias e o quanto eles se sentiam acoados ao ter que se submeter diariamente às revistas policiais nas barreiras policiais montadas pelas UPPs.

Um pouco mais sobre a História da Resistência Timorense e a relação entre coletivo e o futebol.

Muitas vezes pelas ruas e estradas timorenses os meninos e meninas caminham em grupos de, no mínimo, duas ou três pessoas juntas, ao vir ou ao ir para a escola. Os pescadores timorenses pescam em conjunto (como na fotografia), mergulham no mar juntos, as crianças brincam compartilhando brinquedos artesanais, jogando bola ou andando em grupos de amigos de bicicletas e, também, trabalham em conjunto.

As senhoras timorenses mais jovens ou anciãs andam pelas ruas com suas amigas ou filhos. Na maior parte do tempo os timorenses se procuram e formam pequenos ou grandes grupos.

A resistência do guerreiro povo Malbele aos anos de invasão do exercito indonésio ocorreu, entre outros tantos fatores, pela união de forças em prol da vida de todas as pessoas que compõe os grupos de famílias e amigos. Unindo forças, homens e mulheres timorenses resistiram nas montanhas à impiedosa violência imposta ao povo timorense para convencê-lo a entregar seu território a Indonésia. No conflito, que iniciou em 1976, cerca de um terço da população timorense foi morta até ocorrer o processo de independência de Timor em 1999.

Ao analisar o futebol percebe-se que ele é um esporte do grupo ou do coletivo. Uma equipe depende da união de cada jogador para buscar a vitória e todos precisam se doar e ter sua participação ativa na luta pelo melhor resultado. O resultado que seja melhor para todos. Quem sabe seja esse um dos pontos que possa ilustrar as razões que fazem os timorenses gostarem tanto de futebol. A possibilidade de eles realizarem atividades conjuntas na parceria mútua de um com o outro, e consequentemente vencer seus desafios, surpreende e ajuda superar as adversidades.

No Timor Leste, o futebol é uma paixão nacional. É um dos jogos preferidos da gurizada e, em uma partida entre amigos, ser um pequeno grande jogador e marcar um gol, aqui também, é um grande momento de alegria e orgulho.  Quando era eu era pequeno, marcar um gol era um momento único de intensa euforia. Aqui também não é diferente. Você dúvida? Então, veja a expressão do menino na fotografia abaixo, tirada por Keu Apoema, e tire suas dúvidas.

“- Se o infinito é um lugar na terra, o nome dele é Timor Leste…!”  

O FUTEBOL EM TIMOR LESTE, pelo viés do colaborador Igor. S. Berned*.

*Igor é  Educador em Ciências e está em Timor Leste desenvolvendo propostas de Educação com crianças e adolescentes timorenses surdos, cegos, portadores de  síndrome de down e cadeirantes.

Se o infinito é um lugar na terra, o nome dele é Timor Leste

O olhar infinito.

Quantas histórias uma retina é capaz de registrar e não esquecer? Os olhares que viram as guerras, as invasões, a morte, a luta, as armas, agora, vê um país a se reconstruir velozmente. Em Timor Leste os homens e as mulheres são pequenos grandes universos de histórias que ao serem ouvidas provocam muitos arrepios, diga-se de passagem: “- eles provocam muitos arrepios!” na medida em que você se permite escutar as histórias de vida e de concepção de mundo dessas pessoas que viveram em um lugar que foi esquecido pelo mundo durante anos. Escutar as suas estratégias de sobrevivências durante a invasão indonésia que ocorreu de 1976 até 1999 e ver depois um sorriso de um idoso ou uma idosa, de um homem ou uma mulher, ou de uma criança, é emocionante. O passado está presente em Díli e cada cidadão timorense carrega consigo muitas histórias sobre a guerra.

Na cidade de Díli, a capital do país, encontram-se muitas ruínas produzidas pelos bombardeios das forças aéreas indonésias. Tais casas são o espelho que exibe para os timorenses o quanto eles foram fortes em resistir à violência indonésia que matou mais de 300 mil timorenses durante os anos de ocupação. As ruínas, para alguns, funcionam como museus a céu aberto. É preciso lembrar a coragem ao resistir a toda forma de violência que foram submetidos. Histórias de violência vivenciadas e suas estratégias de luta ainda estão vivas nas lembranças e compõem as histórias contadas no presente.


Respeitando suas crenças nos acontecimentos que compõe o cotidiano, como a formação da ilha de Timor “nos tempos bem longe e que se vão lá havia um crocodilo”, aprende-se muito, e, aos poucos, aprendo a me desapegar das diferenças entre verdade e mito. As historias orais são muito presentes no dia a dia, e todo timorense é um potencial contador de histórias intensas, que ativam a imaginação de qualquer um que tente visualizar como convivem com tranquilidade com os cidadãos indonésios que habitam Díli.

A capital de Timor, Díli, é uma cidade infinita. Há pessoas de todos os cantos do mundo. A ocupação da Organização das Nações Unidas – ONU, a partir de 2000, trouxe assistentes sociais, enfermeiros, médicos, professores, militares e outros profissionais de muitos cantos do mundo, que no ano de 2012 foram embora. Contudo, muitos ficaram por aqui para contribuir, principalmente, com suporte técnico nas instituições do Estado Timorense. Há, por exemplo, mais de 2000 cidadãos portugueses trabalhando em escolas públicas, universidades, policiamento e nos ministérios da defesa, judiciário, assistência social etc.

Os encontros em Timor são intensos. Aprende-se sempre na medida em que se permite aprender e dar atenção ao Tétum (primeira língua oficial de Timor leste, sendo a língua portuguesa a segunda) num táxi, num restaurante, numa rua, ao pedir informações ou numa sala de aula, naquilo que o timorense tem a dizer a você. Nessas histórias você aprende que um adulto calmo, muito sábio, pode ser um caldeirão de experiências de atitudes. Os timorenses ensinam que ser pacífico não significa ser passivo. Há diferenças pontuais que diferenciam essas expressões. E por aqui isto é visível no transito, nas ruas, nas histórias contadas por eles.

Encontrar um timorense em sua intimidade, mesmo que numa rápida conversa de rua, é característico. A prova disso pode ser o simples dialogo com uma criança. Com pouco mais de oito anos de idade, um pequeno timorense viveu a guerra civil de 2006. E elas também estão cheias de histórias. Ao percorrer Díli, veem-se muitas crianças correndo pelas ruas dos bairros, jogando bola, andando juntas e vivendo em coletividade.

Geralmente em Díli, ao encontrar uma criança de cinco anos, você descobre que ela fala no mínimo quatro idiomas. Isso ocorre pois os pais das crianças falam língua portuguesa, uma ou duas línguas maternas (ataurense, baiqueno, becais, búnaque, cauaimina, fataluco, galóli, habo, idalaca, lovaia, macassai, mambai, quémaque, tocodede etc), barassa indonésio, tétum e devido a presença de estrangeiros no comércio, como os chineses, filipinos e australianos, há também o domínio do inglês.

E você com quatro anos de curso universitário quantos idiomas fala? Incrível, né?

A potência de uma criança. Estávamos um dia um chinês, um espanhol, um turco, um timorense e eu, brasileiro, conversando. Foi uma das experiências interessantes que tive com as crianças e esta situação de falarem muitas línguas. Os outros estrangeiros eram todos representantes da ONU. Eram meninos timorenses que faziam a tradução do dialogo língua portuguesa/língua inglesa; língua inglesa/língua tétum e depois tétum/língua portuguesa. Uma conversa de meia hora e um universo de histórias de diferentes locais do mundo. Isso é um pouco de Díli. Aqui “há de tudo” e o sol segue iluminando e alimentando a vida em Timor.

SE O INFINITO É UM LUGAR NA TERRA, O NOME DELE É TIMOR LESTE, primeiro texto da série “Derivas no Infinito”, pelo viés do colaborador Igor. S. Berned*.

*Igor é  Educador em Ciências e está em Timor Leste desenvolvendo propostas de Educação com crianças e adolescentes timorenses surdos, cegos, portadores de  síndrome de down e cadeirantes.

Sudeste Asiático, até logo!

Terminamos com esse post nosso mochilão pelo sudeste da Ásia. As fotografias são de Bali, Indonésia, de onde chegamos há poucas horas. O pouco que conhecemos de Bali (praias de Jimbaran e Kuta e o centro da província, Ubud) nos marca profundamente pelos aspectos sociais do local.

O trabalho das classes populares é desgastante e pouco remunerado. E o turismo, tão forte, não dá conta das mudanças que urgentes na qualidade de vida desses moradores. Maior parte do dinheiro fica restrito às redes hoteleiras, aos donos de restaurantes renomados e de festas conhecidas. Balinenses, no geral, vivem sob o sol vendendo roupas, óculos, frutas, massagens, bebidas e alugando motocicletas. Também estão servindo nos restaurantes e construindo as grandes obras. Ganham pouco – um garçom por exemplo, em média 60 dólares ao mês e um pedreiro 120- e desgastam-se muito.

A corrupção é um fato escancarado. Logo ao chegar, agentes de imigração percorrem as grandes filas de turistas perguntando “quem quer passar na frente?”. Muitos querem e  alimentam o sistema pagando 30 dólares – fora os 25 do visto – para ‘furar’ a linha. Ainda, logo nos primeiros dias vimos comboios de carros elegantes sendo escoltados pela polícia. Um taxista nos informou que são “os ricos e os gringos, que pagam para a polícia abrir o trânsito, assim não precisam esperar”. O tráfego de carros e, principalmente, motocicletas é grande e tem privilégio quem tem dinheiro para pagar o ‘abre alas’ da polícia.

Mas não só os problemas nos chamaram a atenção. O pôr-do-sol em Bali é um evento quase mágico que junta tanto turistas quanto nativos na beira da praia. A maioria senta na areia e fica no mínimo uma hora apreciando o sol que se põe no oceano. Alguns se atiram na água, outros surfam e todos, ao seu modo, louvam a beleza natural das cores. É no mesmo momento, infelizmente, que a maré começa a subir e a sujeira a acumular-se na beira da praia.

Também, é impossível resistir à beleza (e à sagacidade) dos macacos da Floresta dos Macacos, em Ubud. A floresta abriga templos da religão hinduísta balinense e é o habitat de centenas de macacos da espécie Macaca fascicuiaris.

Seguem, então, as últimas fotografias do mochilão pelo sudeste asiático. Esperamos que, de alguma maneira, as imagens tenham contribuído para instigar curiosidade e reflexão sobre os lugares e comunidades por onde passamos.

Nos encontramos nas próximas viagens!

SUDESTE ASIÁTICO, ATÉ LOGO!, pelo viés de Liana Coll e Felipe Holman*.

* Felipe é publicitário e autor da identidade visual do blogue.

Último destino: Bali

Chegamos em Bali, Indonésia, há dois dias. Abril é o mês que dá início à estação seca na ilha e quando as temperaturas variam entre 22 graus, pela manha, e 40 graus no pico de sol. Bali é apena uma das ilhas que foram o país indonesiano. Ao todo, o país possui 17.508 ilhas. Entretanto, quando a maré baixa esse número dobra. Distribuída entre as 6 mil ilhas povoadas, a população do país beira os 250 milhões de habitantes.

Nesses dois dias passamos por Jimbaran, uma praia tranquila no sul de Bali, e chegamos há pouco em Ubud, no centro. Entre um lugar e outro, 38 quilômetros que podem ser percorridos, quando em tráfico normal, 1 hora e meia. As ruas, estreitas, estão afogadas aqui também de motocicletas e carros.

Mas mais que carros, o que pode sentir-se nas ruelas é o cheiro de incenso. São inúmeras as oferendas colocadas nas frentes das casas todos os dias. Colocadas em folhas de bananeira, constituem-se de flores, alimentos, incensos e, às vezes, dinheiro. Em Bali, maior parte dos habitantes segue o hinduísmo balinês – o qual mescla budismo, hinduísmo e animismo – e em quase todas as moradias há um templo próprio, onde se realizam cerimônias. Hoje sexta-feira, muitos moradores caminhavam pelas ruas utilizando trajes especiais – blusa de renda colorida e fita amarrada na cintura para as mulheres e saron (pano bordado amarrado na cintura formando uma saia) para os homens: era dia de muitos casamentos e os convidados vestem-se de maneira semelhante para chegar à casa do noivo (onde normalmente ocorre a cerimônia) ou ao templo.

Nesse post, algumas fotos de Jimbaran  e outras de Ubud. No próximo, a floresta dos macacos e os campos de arroz do centro de Bali.

ÚLTIMO DESTINO: BALI, pelo viés de Liana Coll e Felipe Holman*.

* Felipe é publicitário e autor da identidade visual do blogue.